terça-feira, 7 de junho de 2016

A nova Liberdade de Expressão e o fim da Democracia

A jornalista sueca Ingrid Carlqvist, cuja página
no Facebook foi apagada sem qualquer explicação
 
Há poucos dias, um grupo de manifestantes perseguiu e agrediu violentamente vários apoiantes de Donald Trump que assistiam a um comício, em San José, na Califórnia. A presença de perto de 300 polícias não foi suficiente para impedir as agressões dos manifestantes anti-Trump, muitos dos quais empunhavam bandeiras mexicanas. Ao longo dos confrontos, os manifestantes anti-Trump queimaram bandeiras norte-americanas e chapéus com inscrições da campanha do candidato republicano. O Presidente da câmara de San José, reagindo a esta situação, considerou Trump como responsável pelos confrontos: “Não gostamos daqueles que utilizam tácticas de campanha demagógicas, colocando membros da nossa comunidade uns contra os outros, para alimentar as suas próprias ambições políticas”, afirmou Sam Licardo ao jornal britânico The Guardian. Para o presidente da câmara de San José, de origem mexicana e apoiante de Hillary Clinton, a maior responsabilidade dos confrontos pertenceu à candidatura de Donald Trump, acusada de “vir para a cidade provocar problemas que, depois, a polícia local tem que resolver”.

A presença do candidato republicano nessas cidades, acrescentou o “mayor”, apenas “serve para provocar fúria” - um ataque directo à simples presença do candidato republicano: “Chegará o momento em que Donald Trump terá que assumir a responsabilidade pelo comportamento irresponsável da sua campanha”, disse ainda Sam Licardo.

O chefe da polícia de San Jose (membro da organização latina “La Raza”) admitiu que o número de polícias destacado foi inferior ao que seria necessário. Eddie Garcia teve palavras bastantes duras para com os manifestantes, considerando o seu comportamento completamente “inaceitável” e prometendo levar à barra da Justiça o maior número possível de agressores. No entanto, teve a desfaçatez de admitir que, para a polícia, era “mais importante manter as suas linhas de formação do que pôr cobro a ataques individuais.”

Um visionamento de alguns vídeos destas lamentáveis desmonstrações de ódio e intolerância que esquerdistas e liberais têm vindo a fazer, na última meia-dúzia de comícios de Donald Trump, permite vislumbrar uma ideia predominante: a rejeição absoluta do direito de alguém pensar de forma diferente (os partidários de Trump...) imposta através de uma violência nunca vista nas eleições americanas.

Esta intolerância resulta do mesmo conjunto de princípios éticos, políticos e culturais que regem, actualmente, o sistema universitário americano e os movimentos sociais, dominados pelos chamados “snowflakes” – os delicados e frágeis “flocos de neve”, assim designados por serem jovens absolutamente incapazes de conceber, sequer, a existência de uma opinião diferente.

Na base deste sistema totalitário está a teoria do “white privilege” – o privilégio branco. Em síntese, esta teoria considera que todos os brancos são privilegiados apenas por terem a raça que têm, sendo responsáveis pela opressão e exploração das minorias, sobretudo dos negros. A redução dos privilégios brancos é o principal combate para construir uma sociedade justa, dizem os defensores desta teoria.

Como todas as teorias alucinadas, esta tem produzido alguns resultados interessantes. Na Universidade de Yale, por exemplo, um grupo de alunos exigiu que o curriculum do curso sobre “Major English Poets” fosse “descolonizado”, por ser “demasiado branco” e passasse a incluir autores femininos, de cor e transsexuais (“queer folk”). Sendo uma questão que, segundo os regulamentos da universidade, terá que ser levada a votação em órgãos próprios, a petição assinada por 160 alunos termina por avisar que considerará “anti-ético que qualquer elemento da faculdade, seja porque razão for, vote contra”...

A liberdade de expressão tem sido um dos principais alvos desta corrente maioritária no pensamento académico norte-americano. Vítimas da pressão de pequenos mas violentos grupos de minorias étnicas, muitas direcções de universidades americanas aceitaram a imposição de “free speech zones” – zonas de liberdade de expressão, onde é permitido o exercício desse direito. Acontece que, no resto dos campus universitários, os estudantes estão proibidos de exprimir quaisquer opiniões que possam ser consideradas como “micro-agressões”, ofender ou incomodar outros estudantes.

Assim se estabeleceu uma situação de censura quase total a qualquer tipo de expressão de opiniões dissidentes ou diferentes das expressadas por algumas minorias, fora de minúsculos e camuflados espaços pré-determinados. A imposição deste regime ditatorial atingirá cerca de 1/6 das universidades norte-americanas, de acordo com o insuspeito Huffington Post. O resultado deste fenómeno de rejeição absoluta de ideias diferentes é bem visível, tanto na hostilidade e violência com que os jovens anti-Trump se manifestam, como na sua recusa a qualquer debate político, limitando-se a acusações de racismo e xenofobia, sem sequer as fundamentar.

Neste universo  kafkiano, alguns casos roçam a loucura total. Um relatório da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, concluiu que o smples facto de um negro entrar numa sala de aulas com uma maioria branca, é uma micro-agressão. Dan Joseph, um “Youtuber”, useiro e vezeiro neste tipo de encenações, deslocou-se ao campus da Universidade de George Mason, e deu início a um processo de recolha de assinaturas para banir a conhecida música de Natal “White Christmas”, por ser racista. Em uma hora, recolheu 18 assinaturas de outros tantos estudantes universitários. Uma outra recolha de assinaturas para uma petição ao Presidente Obama para parar os bombeardeamentos contra o Estado Islâmico conseguiu 13 assinaturas no mesmo espaço de tempo.

Na Universidade de Emory, surgiram várias inscrições a giz, no chão e em algumas escadas, dizendo “Trump 2016” e “Build a Wall”. Isso bastou para que os estudantes se juntassem, em manifestação, clamando que estavam a ser alvo de intimidações e violência, chegando alguns a afirmar que “temiam pela sua vida” e que o seu “safe space” (“espaço seguro) estava a ser violado. A direcção da universidade, atenta e veneranda, tratou de proporcionar acompanhamento psicológico e colocou-se ao lado dos estudantes “feridos” pelas inscrições, considerando-as um sinal de “valores (...) que colidem com os valores da Universidade de Emory.” Na Universidade de Michigan, perante idênticas inscrições, o reitor foi mais longe e considerou-as “um ataque (...) aos valores universitários de respeito, civismo e igualdade”. Os primeiros alunos que descobriram as inscrições chamaram imediatamente a polícia, por se sentirem “ameaçados” e por considerarem as inscrições como “um discurso de ódio” (“hate speech”).

Numa arena mais ampla, a das redes sociais, um espírito idêntico tem vindo a instalar-se. Em 2006, um vídeo inócuo de Michelle Malkin, uma bloguista conservadora, sobre um conjunto de personalidade perseguidas por islamitas, foi apagado pelo Youtube. Como justificação, o Youtube adiantou apenas que as condições de fornecimento de serviços implicavam que os seus clientes não publicassem nada “unlawful, obscene, defamatory, libelous, threatening, pornographic, harassing, hateful, racially or ethnically offensive, or encourages conduct that would be considered a criminal offense, give rise to civil liability, violate any law, or is otherwise inappropriate.” Uma lista que poderia bem ser substituída apenas pela última razão: “inapropriado”...

Recentemente, o Twitter criou um conselho com quatro dezenas de organizações para policiar o conteúdo da sua rede, em nome do combate ao “discurso de ódio”, uma imposição da União Europeia. A constituição desse conselho levou o The Spectator a publicar uma artigo de opinião onde classifica a iniciativa como fazendo da liberdade de expressão uma “palhaçada”.
Dando razão a esta afirmação, o responsável do Twitter para o Reino Unido, num artigo publicado no jornal inglês The Guardian, salientava o facto de a Internet ter tornado “pontos de vista desafiadores, até incómodos (...) mais visíveis” de uma forma que “nem sempre é confortável de se olhar”. O problema para o Twitter é, nas suas palavras, “assegurar que o ruído provocado por aqueles que procuram criar divisões” seja “afogado” por “vozes de esperança e respeito”.

Outro gigante da Internet, o Google, tem um historial mais complicado, com inúmeros actos de censura aparentemente aleatórios. De destacar uma cedência vergonhosa, até 2010, ao governo chinês, censurando, entre muitas coutras, referências a Tiananmen, ao Tibet e a Taiwan, no seu motor de busca. Já o Facebook ainda recentemente se viu envolvido numa polémica, quando um antigo colaborador revelou, à publicação Guizmodo, que as notícias de interesse para utilizadores politicamente conservadores eram sistematicamente suprimidas da secção “trendings”.  O Facebook negou, mas o facto de, pouco depois, ter cancelado a conta de uma jornalista sueca, Ingrid Carlqvist, depois desta ter publicado um vídeo inócuo sobre o aumento de crimes sexuais, praticados por imigrantes, na Suécia, não ajuda à sua reputação.

E que terão de comum os violentos opositores de Donald Trump que atacam os apoiantes do candidato republicano, os frágeis “snowflakes”, jovens universitários que quase desmaiam quando ouvem alguém discordar de si e a desinteressada atitude de combate aos “discursos de ódio” dos gigantes da Internet e das principais redes sociais? A mesma política de intolerância em relação a posições que fujam ao códice autorizado da Esquerda e dos liberais.

Como líder desta uniformização, surge a União Europeia que, desde Maio deste ano, aprovou um código de conduta a aplicar ao Facebook, Twitter, Youtube e Microsoft, quanto àquilo que designa por “illegal online hate speech”. Este código inclui disposições extremamente preocupantes, como a existência de “trusted reporters”, indicados pelos estados membros, para “ajudarem a promover notícias de alta qualidade”. As quatro empresas devem também contribuir para “identificar e promover contra-narrativas independentes” para combate aos “discursos de ódio”.

A legislação europeia determina que “manifestações de racismo ou xenofobia devem constituir ofensa em todos os países da UE e ser punidas com penas efectivas, proporcionais e dissuasoras.” No entanto, esta formulação colide com a jurisprudência estabelecida pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que distingue entre conteúdos que “ofendam, choquem ou perturbem o Estado ou qualquer sector da população”, protegidos pela Liberdade de Expressão e “conteúdos que contenham genuínos e sérios incitamentos à violência e ao ódio”

Está, assim, feita a “Santa Aliança” entre empresas às quais só interessa o lucro, uma Esquerda determinada em apagar quaisquer traços de uma identidade europeia de raiz cristã e os liberais, essa corrente composta essencialmente por tolinhos sem ideologia que não seja o ódio visceral aos conservadores e à Direita.
Os primeiros sinais estão aí. Na Escócia, um homem de cerca de 40 anos foi preso, em sua casa, na localidade de Rothesay, depois de a Polícia ter recebido denúncias sobre “posts ofensivos relacionados com refugiados sírios”. Aqui ao lado, a Rede Espanhola para os Refugiados anunciou que vai processar o Arcebispo de Valência, Cardeal Antonio Canizares por este ter “criticado organizações feministas e ter falado contra a política europeia para migrantes.”

É o regresso do delito de opinião, das fogueiras inquisitoriais, da caça às bruxas, da ditadura de pensamento único. Com estas últimas decisões da União Europeia, apaga-se aquele que era o último espaço de Liberdade para 400 milhões de cidadãos - a Internet - em nome do mais sinistro "discurso de ódio" existente, o da Esquerda e dos liberais intolerantes.
  
Como dizia Manuel de Brito Camacho, político da I República: “Sempre que ouço alguém gritar, na rua, ‘Viva a Liberdade’ vou à janela para ver quem vai preso”.

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