sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES, MACAU E OS ILEGAIS: A INVENÇÃO DA HISTÓRIA


Achei alguma piada a esta versão, colocada agora a circular - e à qual deram voz alguns conceituados jornalistas locais - de que teria sido Mário Soares a "origem" da "decisão" que levou à legalização de 50 mil clandestinos, um ano depois da sua visita a Macau. Desculpar-me-ão esses colegas, mas essa versão é completamente falsa.




O que se passou, em Março de 1990, foi uma operação montada por um grupo de oficiais do então ainda existente Estado Maior das Forças de Segurança de Macau, à revelia do seu próprio comandante, que criaram, premeditadamente, uma situação de descontrole da segurança pública para, a seguir - pretendiam eles... - intervir e provar que aquela estrutura (o Estado-Maior das Forças de Segurança de Macau) era essencial para a estabilidade do território. Já escrevi sobre isto, há um bom par de anos, mas desapareceu no vasto mar da Internet. 

A "corrida" dos ilegais para se manifestarem à frente a Palácio da Praia Grande, no dia 30 de Março, é provocada por uma notícia divulgada pelas Forças de Segurança, através do Gabinete de Colunicação Social. Tratei, pessoalmente, da divulgação dessa notícia - uma notícia de rotina, que foi divulgada juntamente com uma dúzia de outras, nesse dia, respeitante à actividade regular dos serviços públicos, devido às minhas funções de Chefe do Departamento de Informação do GCS.
Curiosamente, o chefe do Estado-Maior das FSM telefonou-me - algo de insólito, que nunca tinha acontecido - na tarde do dia anterior, perguntando-me se o Governador já tinha visto e aprovado a notícia sobre a segunda fase da Operação Dragão, uma operação limitada de legalização de pais de alunos indocumentados. Expliquei-lhe que o Governador não gastava o seu tempo a verificar e aprovar notícias de carácter rotineiro dos seviços públicos.





Insistu várias vezes e fui-lhe repetindo a mesma explicação. No dia seguinte de manhã, por volta das nove horas, os ilegais começaram a dirigir-se ao Palácio da Praia Grande, motivados por interpretações distorcidas da notícia e desperados pela legalização (ao contrário do que diz a Tribuna de Macau, que fala numa mobilização depois de uma conferência de Imprensa das FSM, pelas 18h00) Eu trabalhava, na altura, a 200 metros do Palácio da Praia Grande e, dois minutos depois do primeiro alerta, estava lá, acompanhado pelo António Isidro, tradutor do GCS.
Os ilegais eram uma escassas dezenas, 20/30, quase tantos como os elementos da PSP e PJ que já lá se encontravam. Logo a seguir, regressei ao meu gabinete, contactei o director do GCS, a quem fiz um ponto da situação para que ele informasse o Governor. Contactei também o comando da PSP, perguntando-lhes o que se passava na Praia Grande e tive como resposta que "estava tudo sob ccontrole, já tinham sido tomadas as medidas necessárias para resolver a situação". Durante as 4/5 horas seguintes, para meu grande espanto, a PSP não mexeu uma palha, enquanto o número de ilegais ia aumentando.

Regressei ao Palácio e os ilegais eram já centenas. Não havia elementos da PSP a controlar os acessos ao Palácio e aimpedir que mais ilegais ali se acumulassem - PRIMEIRA E MAIS BÁSICA MEDIDA DE SGURANÇA A TOMAR, numa situação daquelas. Duas horas depois, eram vsíveis os primeiros sinais de que estrutas organizadas (os "cabeças de cobra", trafiantes de pessoas) já estavam a funcionar. Os ilegais chegavam em carrinhas, em "comboios" de 2/3 carrinhas. Os elementos da PSP olhavam e nada fazia. Perguntei a um graduado macaense, meu amigo aliás, o que se passava e ele encolheu os ombros, abriu as mãos, em sinal de impotência, e disse-me: "As ordens que tenho são aguardar por ordens..."
Ao fim desse primeiro dia, o largo diante do Palácio da Grande era um mar de gente, com milhares de pessoas ali acumuladas e dezenas de jornalistas estrangeiros .As ordens do comando das Forças de Segurança de Macau para que os agentes da PSP não actuassem, nem sequer limitando o acesso à zona do Palácio - algo para o qual bastava estabelecer barreiras em QUATRO RUAS - foram UM ACTO PREMEDITADO E PLANEADO, PARA CRIAR UMA SITUAÇÃO DE DESCONTROLE DA SEGURANÇA PÚBLICA. Os responsáveis por isso, como MUITO BEM SABE O ENTÃO COMANDANTE DAS FSM, Proença de Almeida, foram um grupo de oficiais do Estado-Maior das FSM, incluindo o tenente-coronel Nuno Roque.

Toda a Comunicação Social local e internacional, de Hong Kong - South China, BBC, CNN, etc, etc - já ali estava e dava-me algum trabalho, uma vez que no GCS, os contactos e acompanhamento dos Media internacionais eram da minha responsabilidade. No Palácio, o governador Melancia era "intoxicado" com as informações provenientes das Forças de Segurança, pelos canais hierárquicos próprios, que lhe diziam que a situação estava sob controle, estavam à espera da noite para resolver o problema.
PORMENOR IMPORTANTE: Tudo isto acontece na mesma altura em que é publicada, em Boletim Oficial, a lei que extingue o Estado-Maior das Forças de Segurança de Macau e cria a Secretaria-Adjunta para a Segurança. Esta alteração reduzia substancialmente o número de oficiais das Forças Armadas a prestar serviço no território, que era mais de meia centena, na altura. É por causa disto que um grupo de oficiais decide "dar uma lição" (frase utilizada, por um deles, numa conversa com o tenente-coronel Proença de Almeida, já no rescaldo dos acontecimentos...) àqueles civis que não percebiam nada de segurança. Montam, assim, um inicidente, para depois mostrar que só eles são capazes de garantir a segurança de Macau. 

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